Homem jovem com terno no trabalho checando o relógio para aproveitar o tempo.

“Uma pesquisa rápida na internet e encontramos milhares de vídeos, palestras e aulas sobre como aproveitar o tempo, como organizar a agenda, etc. Não poucas vezes, comete-se um erro grave. Apresenta-se o centro do problema no ambiente, nas circunstâncias: excesso de tarefas, tempo de deslocamento, atrasos, reuniões inúteis, etc. Isso tudo é real e supõe um desafio, mas o centro do problema não é externo. É interno.

A solução está dentro de nós. Não é o tempo que precisa ser gerenciado, mas nós mesmos, os protagonistas.

Muitas vezes dizemos: “O tempo é cruel”; “O tempo é sábio”. Só que o tempo não é uma pessoa, não é sujeito. Não dá para ligar para ele e dialogar. Porém, nós somos pessoa, sujeito capaz de decidir, reagir e atuar. Por isso, gerencie você o uso do tempo. Gerenciar você mesmo implica conhecer suas qualidades (eficaz e eficiente), suas limitações (lento para certos trabalhos) e seus defeitos (esquece os compromissos). Normalmente esquecemos aquilo que não damos a necessária importância. Já o que levamos no coração não precisa de agenda, nem de alarme. Não há mãe que esqueça de recolher os filhos na escola no final do dia.

Uma qualidade importante que todos precisamos desenvolver é saber dizer não.

Em primeiro lugar, dizer não para nós mesmos.

Por isso, não adianta confiar muito em programas, notificações, secretárias ou qualquer outro recurso técnico para nos lembrar de compromissos. Vão nos avisar e nós diremos: “Daqui a pouco”; “Outro dia”; “Estou ocupado”; “Só mais um pouquinho”. Para obter esse autodomínio é preciso treinar diariamente em coisas pequenas. Diga não aos seus instintos quando são caprichosos: comer fora de hora, ver o que há na internet toda hora, etc. Diga não também aos caprichos do seu corpo: não fique deitado durante o dia, pratique esporte, etc. Diga não aos seus gostos e gastos exigentes. Não se engane: se não consegue dizer não a si próprio nessas coisas, não saberá dizer não em coisas mais importantes e necessárias.

Em segundo lugar, saber dizer não para os outros.

Até mesmo para o chefe. Nesse caso, não se trata de lascar uma negativa e se arriscar a perder o emprego. Há infinitos modos de dizer não. E muitos momentos também. Lembro de um caso interessante. O rapaz era trainee em uma empresa. Um jovem solteiro começando sua vida profissional. O chefe estava convencido de que ele não tinha outra coisa para fazer na vida e que fora do trabalho ficava em casa ou na farra. Por isso, havia horas extras todo os dias. Como ele apresentava resultados, procurou o chefe para uma conversa, sentados, a sós. Explicou a situação da família, que precisava da sua ajuda, de um curso que fazia e de como não era farrista. Propunha ficar mais tarde uma ou duas vezes por semana ou em caso de emergência, mas nos outros dias sairia mais cedo. A maturidade do rapaz impressionou o chefe, que não só aceitou a proposta como mudou o modo como se relacionava e trabalhava com ele.

Em terceiro lugar, muito cuidado com as frases: “Não tenho tempo” e “Não tenho dinheiro”.

Com honrosas exceções, geralmente não temos tempo e dinheiro para o que não queremos. Tempo e dinheiro são elásticos. O quanto podem ser esticados, depende muito da nossa disposição e interesse. Não poucas vezes reparei em pessoas que se queixavam da falta de tempo e dinheiro e que, de repente, começam a namorar alguém que mora do outro lado da cidade, se matriculam em uma pós-graduação ou fazem uma viagem de férias ao exterior.

Talvez isso fique mais claro quando entendemos que preguiça não é somente o estar de papo para o ar, sem nada para fazer. É possível estar ocupado o dia inteiro, trabalhar muitas horas e ser um completo preguiçoso. Simplesmente evita-se tudo o que é mais custoso ou monótono e prioriza-se aquilo que agrada, o que nos interessa. As pendências se acumulam, a gaveta se enche de papéis, a casa precisa de consertos e arrumações. Essa preguiça seletiva faz com que estejamos sempre no atraso, apagando incêndios, passando horas desnecessárias no escritório, trocando a noite pelo dia, não cumprindo compromissos, deixando um rastro de marcas de trabalho mal-acabado.

Em quarto lugar, delegar tarefas.

É necessário formar as pessoas, delegando as tarefas que podem fazer e retendo aquelas que só nós podemos fazer. Quando um diretor de empresa gasta seu tempo fazendo o que o assistente júnior deveria fazer, algo está muito errado. Infelizmente, chefes, pais e mães, educadores em geral, assumem tudo para si. Geralmente, por uma série de motivos: vício de fazer e não conseguir parar e pensar; ânsia de controlar tudo; achar que os outros não vão fazer bem feito; querer evitar dificuldades para os filhos; medo de exigir. Mas o resultado é sempre o mesmo: super pais — e, por consequência, infra filhos —, empresas pouco eficazes, funcionários desmotivados, falta de pessoas preparadas para liderar no futuro.

Não posso deixar de colocar aqui a experiência de educação de um casal com doze filhos. Todos eles entraram em boas universidades, se casaram, trabalham e se estabeleceram na vida. A experiência de delegação de tarefas que utilizaram foi bem- -sucedida.

“As crianças tiveram que realizar tarefas a partir dos três anos de idade. Um garoto de três anos de idade não limpa muito bem os banheiros, mas aos quatro anos de idade, faz um trabalho razoavelmente bom. Pedimos às crianças que lavassem suas próprias roupas quando completaram oito anos. Quando chegaram aos 16 anos, compramos um carro para cada um. O primeiro aprendeu o que isso significava. Quando o caminhão de reboque estacionou o carro na entrada da garagem, o meu mais velho disse: “Pai, isso são destroços!” Eu disse: “Sim. Aqui estão os manuais. As ferramentas estão na garagem. Pago as peças, mas não o conserto”. Onze meses depois, o carro funcionava. Minha filha tinha um dos carros mais descolados e invejados da escola. Tinha um orgulho enorme dele. E nenhum dos meus filhos conseguiu uma multa por excesso de velocidade”.

Se uma criança aprende a se virar, imagine um adulto. Delegar tarefas dá trabalho no início, exige paciência, tato, mas em pouco tempo a recompensa para ambos é muito grande.

Um detalhe importante para gerenciar você no tempo é dar valor aos minutos.

Esperar que apareça uma manhã ou tarde livre para finalmente fazer aquela tarefa, sair com a filha ou fazer o trabalho da pós-graduação é furada. Nunca vai acontecer. O que temos são uma coleção de dez ou quinze minutos que, somados, fazem toda a diferença. O segredo está nessa soma, que costumamos chamar de constância. Constância é uma qualidade — uma virtude — que vale muito a pena conquistar. Discreta, silenciosa, mas faz milagres. O ser humano não consegue nada com tacadas esporádicas.

Quinze minutos de uma conversa com uma amiga com total atenção, sem ver o celular, faz diferença. Repita isso várias vezes: conseguirá confiança e respeito da sua amiga. Quinze minutos de estudo ou leitura de um livro faz diferença. Repita isso todos os dias, ou pelo menos três vezes na semana e conseguirá aprender um idioma, lerá os clássicos da literatura, etc. Quinze minutos para fazer uma série de exercícios físicos no apartamento trará bem-estar e o deixará em forma. Quinze minutos que se economizam ao diminuir o tempo nas redes sociais ou qualquer outra bobagem se tornam facilmente uma hora. Uma hora, ou menos, é o que a esposa pede no fim do dia para falar de suas coisas e que tem uma grande importância no relacionamento a dois. Uma hora, ou menos, de atenção basta para ganhar o coração dos filhos.

É bonito o relato de um profissional de meia idade, australiano, casado e pai de quatro filhos:

“Minha esposa me ligou no escritório e disse: ‘Você tem que pegar o Harry — o nosso filho caçula — na escola hoje’. Ela tinha outro compromisso com os nossos outros três filhos. Então eu saí do trabalho uma hora mais cedo naquela tarde e peguei Harry no portão da escola. Nós andamos até o parque próximo, nos divertimos nos balanços. Depois comemos uma pizza e fomos para casa. Dei banho nele e o vesti com seu pijama do Batman. Li um capítulo de ‘Tiago e o Pêssego Gigante’ e o coloquei na cama, o cobri com cobertor e dei um beijo em sua testa. Quando eu saía do quarto ele disse: ‘Pai, hoje foi o melhor dia da minha vida’”

São nesses minutos, com pequenas delicadezas, que custam pouco e são feitas com carinho e atenção que jogamos a qualidade da nossa vida e daqueles que amamos.

(Texto retirado do livro “Em busca de equilíbrio – Trabalho, família e projeto de vida“, do autor Maurício Dominguez Perez.)