Homem jovem sentado assistindo ao pôr-do-sol e ouvindo música.

Recordo-me bem que, certa vez, meu pai – regente de uma orquestra com uma fantástica trajetória profissional – me contou como, depois de uma esmerada e profunda execução do Réquiem de Wolfgan Amadeus Mozart, uma pessoa do público aproximou-se dele e disse: “Obrigado, maestro, porque depois de sua interpretação nesta noite decidi reconstruir a minha vida”. Meu pai assegura que esse foi o maior êxito profissional de toda a sua carreira.

Ao longo de todos os anos de minha caminhada como intérprete, essa lembrança tem me ajudado muito a entender o poder transformador da música: ela pode tornar as pessoas melhores. Se olharmos para o mundo, o que veremos? Parece que, apesar do formidável avanço tecnológico que impulsiona a nossa sociedade, a falta de comunicação e o ruído estridente tornaram-se os grandes êxitos produzidos por nosso mundo, rompendo a sua harmonia. Assim, quando temos que lidar com conflitos ou situações difíceis, escondemo-nos atrás da tecnologia ao invés de ousarmos conversar pessoalmente, de pronunciarmos um sincero tu. Podemos constatar sem muito esforço as consequências dessa falta de harmonia ao nosso redor, fruto da falta de comunicação: pessoas despedaçadas, famílias despedaçadas, equipes despedaçadas, empresas despedaçadas, países despedaçados… um mundo despedaçado! Será que estamos interpretando o mundo de uma forma equivocada? Será que estamos tentando abrir as portas com a chave errada?

A música torna as pessoas melhores.

Espero que o leitor perdoe a minha ousadia se eu afirmar que estou convencido de que a música se revela como uma das grandes soluções dadas ao homem para resolver os problemas, graças ao seu impressionante poder transformador. Diante dessa afirmação, surgem em seguida diversas perguntas: em que consiste esse poder? É necessária uma preparação especial para ter acesso a ele? Ou, dito de outro modo, a música pode me transformar? Pode mudar o meu jeito de me comportar, de tratar os outros, de levantar pela manhã, de sorrir para o meu chefe ou para o motorista do ônibus?

A resposta é sim. A música pode transformar o mundo – uma família, uma empresa, uma sociedade – porque pode transformar as pessoas, ou melhor, cada pessoa. Como explica o filósofo anglo-americano George Steiner, a música – como qualquer obra de arte valiosa – é de uma indiscrição total: questiona-nos, interpela-nos. Deseja comunicar-se com o espaço mais íntimo de cada ser humano. Em função da resposta que damos a esse exigente chamado, podemos melhorar ou não.

A música é universal e atemporal.

Isso é o que há de maior na arte. Por isso, os grandes criadores de todos os tempos permanecem vivos por meio de suas impressionantes criações. O Rei Lear de Shakespeare ou a Sinfonia “Júpiter” de Mozart continuam falando ao coração de quem souber dispor-se a escutar a sua imperecível mensagem, pois – apesar de tudo – o homem continua sendo homem. Os sonhos, as aspirações, as frustrações e os anseios do ser humano de hoje e do de vinte séculos atrás são, mais ou menos, os mesmos. No livro do Eclesiastes – datado do século III a. C. – lê-se: “O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: ‘Veja: isto é novo’, ela já existia nos tempos passados” (Ecl 1,9-10). Essas palavras, que poderiam ter sido escritas ontem, permanecem atuais depois de quinze séculos. O mesmo acontece com as tragédias de Sófocles ou com os Diálogos de Platão.

As grandes obras da literatura, da arte e do pensamento são surpreendentemente atuais, e sempre contêm em si – e isto é decisivo – um importante ensinamento para cada homem, inclusive para o homem do século XXI. Por isso, é fundamental perder o medo delas, descobrir o seu lado amável, dedicar-lhes tempo e atenção. Em suma, conferir-lhes um espaço na própria vida. É prestar um desserviço às obras primas da literatura, música ou cinema, oferecê-las como suplementos do jornal de domingo. Que sentido pode haver em vender conjuntamente, por poucos euros, um panfleto em cores berrantes sobre o novo casamento de um toureiro, e os quartetos Razumovsky de Beethoven? Para mim, este é um sinal inequívoco de que – conforme afirma o intelectual francês Jean Clair – os deuses desertaram essa sociedade.

A arte mexe com as emoções.

Voltando à questão sobre o poder purificador da obra de arte, penso que isso seja algo que todos nós experimentamos quando vemos, por exemplo, um filme que nos comove profundamente. Talvez não saibamos explicar muito bem se isso ocorre por causa de um determinado estado de espírito anterior, ou se o filme em questão nos surpreende em um momento em que as nossas defesas emocionais estão enfraquecidas. Em qualquer caso, quando isso ocorre – e ocorre com relativa frequência –, somos como que golpeados, tocados profundamente. Tanto é assim que pode, inclusive, nos custar voltar à realidade cotidiana e banal. Nesses indescritíveis momentos, nos quais desejamos que ninguém nos incomode e que durem para sempre, experimenta-se um estado de serena exaltação; usufrui-se de uma paz e satisfação que não trocaríamos por nada no mundo. (…)

O poder terapêutico da música.

Além da capacidade de despertar o nosso lado mais humano – isto é, mais espiritual –, a música pode tornar-nos melhores graças ao poder terapêutico que exerce em nosso espírito e em nosso cérebro. O neurologista Oliver Sacks, um grande especialista em Doença de Parkinson, afirma que “o poder terapêutico da música é importantíssimo, e proporciona um relaxamento dos movimentos que