carinho entre mãe e beb

A personalidade do adulto finca suas raízes nas primeiras experiências da criança, inclusive em algo tão precoce quanto a relação que o lactante estabelece com sua mãe. Uma das explicações que conquistou maior aceitação — e que foi muito aplicada à formação cristã — foi a teoria do apego do psicanalista inglês John Bowlby (1907-1990)1Cf. J. Bowlby, A Secure Base. Parent-Child Attachment and Healthy Humam Development, Basic Books, New York (NY) 1988. Esta teoria foi aplicada de modo difuso em uma psicologia de matriz cristã; cf., entre outros exemplos, cf. S. Bruno, La costruzione dei legami di attaccamento nel rapporto uomo-Dio, “Tredimensioni” 5 (2008) 292-302; J.R. Prada Ramírez, Psicologia e formazione Principi psicologici utilizzati nella formazione per il Sacerdozio e la Vita consacrata, Editiones Academiae Alfonsianae, Roma 2009, pp. 146-157; P. Ciotti, Teoria dell’”attaccamento” e maturazione di fede, “Tredimensioni” 7 (2010) 266-278; W. Vial, Maturidad psicológica y espiritual, Palabra, Madrid 2016, pp. 72-75.

Em síntese, o apego é a vinculação afetiva que a criança estabelece com sua mãe desde o nascimento por meio das interações entre ambos. Em sentido amplo, o conceito se aplica também às relações entre a criança e seu cuidador e, em menor medida, às que estabelece com outras pessoas significativas.

Desde os primeiros dias de vida.

A experiência mostra que desde os primeiros dias de vida o bebê busca o contato com sua mãe que lhe proporciona segurança, proteção e consolo, especialmente nos momentos em que se sente ameaçada. Por isso, a criança esforça-se por se manter próxima a ela, que é a sua principal figura de apego. Resiste à separação e, quando esta se produz, sente ansiedade (chamada precisamente de ansiedade de separação) e sensação de abandono ante o que interpreta como uma perda. Quando a mãe retorna, a criança torna a se acalmar. Ela se serve da figura de apego como base segura, um ponto de referência a partir de onde pode explorar o mundo físico e social para logo voltar novamente a ela. Também busca refúgio nessa figura em momentos de tristeza, temor ou mal-estar, buscando apoio e bem-estar emocional.

O que apresentamos é uma relação normal mãe-filho, que dá lugar a um apego seguro na criança. O bebê sabe — ainda que se trate de um conhecimento mais instintivo que consciente — que a mãe está ali incondicionalmente e isto reforça a comunicação e o carinho entre eles. Ao longo da primeira infância, durante a qual vai se construindo o aparato psíquico, é que se estabelecem os alicerces de um edifício que cresce firme, porque o mundo parece confiável e coerente: a criança sente que não está sozinha, que é valorizada, que tem um valor intrínseco. Sabe-se amada e sustentada.

Às vezes não é possível estabelecer este vínculo com a mãe biológica devido ao falecimento, à separação na família, etc., porém, este papel pode ser assumido por uma figura de apego substitutiva que assume a função maternal. Pode ser o pai, a avó, um cuidador, etc.

O que gera um apego inseguro?

Mas o que acontece se a mãe não consegue cumprir esta função? Neste caso, forma-se um apego inseguro, cuja origem estaria em uma:

Mãe ausente: é o que acontece com frequência com crianças criadas em orfanatos, cujos pais se separaram em seus primeiros anos de vida; ou ainda quando a mãe passa muito tempo fora de casa e a criança não conseguiu estabelecer este laço estreito nem com ela nem com outra pessoa que assume o papel de figura de apego substitutiva.

Mãe angustiada: Não é capaz de absorver a ansiedade da criança (de atuar como esponja) porque ela mesma fica tensa ao ver seu filho nervoso, passa-lhe essa impressão e ambos entram em um crescente estado de agitação.

Mãe superprotetora: Não permite que a criança fique nervosa e, portanto, tampouco permite que explore o desconhecido, que se abra ao mundo. Em consequência, a criança não aprende a suportar frustrações que possam acarretar sofrimento, nem a lidar com os estados de ansiedade. Como a vida se encarrega de proporcionar essas situações, acabará desenvolvendo uma baixa tolerância à frustração.

Mãe incoerente: É o estilo mais prejudicial. Ocorre quando a mãe reage de forma muito diferente diante dos mesmos estímulos, como sucede com personalidades instáveis ou viciadas na droga ou na bebida. Se a criança se porta mal e a mãe está serena, aplica um castigo proporcionado; se, pelo contrário, a mãe está tensa ou bêbada, responde descontroladamente. Por causa disso, o mero fato de escutar que a mãe se aproxima significa para a criança um motivo de tensão: com sua escassa capacidade de raciocinar, não sabe como se apresentar, como falar, se conta ou não seus êxitos e seus fracassos. Frequentemente ficará muda. O mundo é visto como algo incoerente e nada confiável, pouco influenciável pelo próprio comportamento.

As repercussões na vida adulta.

Estas experiências no início da vida influem no desenvolvimento posterior. Se os alicerces não são suficientemente sólidos, se um apego inseguro foi desenvolvido, aparecerão dificuldades em diferentes âmbitos quando a criança, o adolescente e o adulto tentarem explorar o mundo e interagir com outras pessoas. Nestes casos o sujeito continuará buscando o contato ou a proximidade com uma base segura, seja ela a mãe ou outra figura de apego substitutiva, sem nunca alcançar a necessária autonomia. Isto é, buscará apoio emocional ante qualquer problema, já que não será capaz de lidar sozinho com ele. Se encontra alguém que o resolva aumentará a sua dependência. É propenso a sofrer uma forte ansiedade de separação. É o caso que se repete todos os anos nos primeiros dias de aula no colégio, quando a criança não consegue se adaptar à ausência da mãe, não deixa de chorar e precisa que um dos pais venha buscá-la.

Uma pessoa com esse perfil desenvolve um conceito baixo de si mesma, pois lhe ensinaram que não é capaz de sobreviver de modo autônomo. Apresentará dificuldade para estabelecer relações paritárias com os demais, buscando a dependência (se se sente incapaz), ou, pelo contrário, o domínio. Este ocorre quando a criança foi aplaudida pela mãe em tudo o que fazia, levando-a a crer que ela é a melhor e desprezando os demais. Desenvolve a hipertrofia do eu, própria de uma personalidade narcisista. Em ambos os casos, ao sair do entorno familiar, a criança será incapaz de estabelecer relações normais e paritárias: tenderá a se submeter ou a se impor e sempre manipular os demais.2Estes extremos são tratados pelo autor na parte do livro dedicada às patologias da personalidade.

(…)

Todos passamos por experiências negativas em nossos primeiros anos e conservamos pequenas carências afetivas que tratamos de compensar em nossas relações. Afinal, somos todos um pouco inseguros. Não é preciso se inquietar, portanto, quando reparam — em si mesmo ou nos demais — alguns dos traços que estivemos descrevendo, sempre que não interfiram significativamente com as atividades e os relacionamentos e não se perca a esperança de ir melhorando ao longo da vida.

(Texto retirado do livro “A formação da afetividade – Uma perspectiva cristã“, do autor Francisco Javier Insa Gómez)