Duas pessoas conversando

Um guia para o caminho.

“Uma das coisas mais árduas e difíceis que há nesta vida é saber ir a Deus e tratar familiarmente com Ele. E por isso não se pode andar por esse caminho sem algum bom guia”1PEDRO DE ALCANTARA, Tratado de la oración y meditación, II, 5..Quando se trata de ir a Deus, também se deve agir com sentido comum: procurar a orientação de quem sabe o caminho que a Ele conduz. E assim um cristão pode, pouco a pouco, alcançar maturidade na fé, pois na direção espiritual poderá ser encontrado esse guia ou conselheiro sábio e experiente, a quem se abre a alma, que faz às vezes de mestre, médico e de bom pastor nas coisas que a Deus se referem. Assinala possíveis obstáculos, sugere metas para a vida interior, sempre animando, ajuda a descobrir novos horizontes e desperta para a fome e sede de Deus.

Ninguém pode, ordinariamente, guiar-se a si mesmo sem uma ajuda especial de Deus. Ninguém é bom juiz em causa própria ou suficientemente forte para se furtar às funestas influências que nos desviam do bem. A falta de objetividade, a paixão com que vê a si mesmo, a preguiça, vão obstaculizando o caminho a Deus. E, nesse processo, chegará o estancamento espiritual, o desânimo, a tibieza.

Uma recomendação da Igreja.

Para tanto, desde há muitos séculos a Igreja recomenda a prática da direção espiritual.2Cf. p. ex. PO 18, PDV 40. Obviamente, alguém para se aventurar a ser diretor espiritual deverá ter muita experiência de dirigido. Seria incongruência e incoerência alguém se propor a dar um acompanhamento do qual desdenha ou julga não precisar mais. Somente será um bom diretor quem for um bom dirigido.

A Igreja segue recomendando a direção espiritual, meio de grande eficácia para progredir na vida cristã, que nada perdeu do seu precioso valor, não só para assegurar a formação espiritual, mas para promover e sustentar uma contínua fidelidade. É interessante perceber como na sociedade civil há relevância e conveniência de “personalizar” a formação com o intuito de atingir objetivos e melhorar resultados, por meio de profissionais como personal adviser, personal trainer, coach. O ideal seria que todos na Igreja tivessem direção espiritual, inclusive — e especialmente — os que ocupam altos cargos hierárquicos.

O bom uso da liberdade.

Entretanto, é inegável que na segunda metade do século passado houve uma crise que envolveu também a direção espiritual. E esta, acabou quase no horizonte do esquecimento. Chegou-se ao ponto de afirmar o seu desterro completo da vida cristã, como se fosse uma prática ultrapassada. Outras vezes, evitou-se utilizar os termos direção, diretor e dirigido, para não soar antiquado. Como se dirigido fosse sinônimo de teleguiado, escravo ou espécime com tal debilidade que precisaria ser comandado em tudo. E como se diretor fosse alguém que suprimisse a liberdade do dirigido, que exigisse obediência, que seria uma espécie de “oráculo de Delfos”, tirânico, implacável e infalível nas suas decisões.

Tudo ao contrário: o diretor procura ajudar a formar pessoas de critério, que usem plenamente a liberdade. Importa resgatar toda a força desse meio tão humano e tão divino de busca em cumprir o desígnio divino sobre cada um: a santidade. “Porquanto, é esta a vontade de Deus: a vossa santificação”.31Ts 4,3.

Quando alguém descobre e se encontra com Cristo, deixa-se encantar por Ele e percebe a sua vida com um sentido, com uma missão. Contudo, Deus colocou o nosso destino em nossas mãos. Não, certamente, no sentido de que podemos conseguir por nossas forças aquilo que nos tem preparado, mas sim porque se encontra em nossas mãos converter-nos a Ele, que é quem nos pode fazer felizes. Ou seja, a salvação também depende da minha correspondência: Deus me quer e eu também devo querer.

É preciso crescer sempre.

E, porque somos seres temporais, devemos renovar e fazer crescer no tempo nossa resposta, a qual deve ser sempre mais autêntica, mais livre e plena, purificando-a de motivos externos e circunstanciais. Isso é um convite à fidelidade, à renovação gozosa e à doação mais desinteressada.

A vida sobrenatural nunca permanece igual, senão que, a cada ato livre, ou cresce (ou se dispõe a crescer) ou morre (ou se dispõe a morrer). Não há nenhuma ação livre concreta que seja neutra ou indiferente com relação à vida sobrenatural. Ou seja, nesta existência mortal, a regra é a inconstância, não continuar na mesma situação, no mesmo estágio. Uma pessoa acabará subindo ou descendo, tentar imobilizar-se provocará a queda. “O amor que não cresce, começa a correr perigo”.4FRANCISCO, AL 134. Deixará de ser bom quem não deseja ser melhor. “Não pode ter-se por bom quem não deseja ser melhor, e quando começas a não desejar ser melhor, nesse instante deixas de ser bom”.5BERNARDO DE CLARAVAL, Epístola 91,3.

Somos livres! Liberdade é um bem muito grande e origem de muitos males, mas também é origem da santidade e do amor. E dentro desse espírito de liberdade é que devemos decidir se teremos a nossa direção espiritual.

A constância é fundamental.

Um bom diretor espiritual pode ajudar muito, pois presta auxílio com a ciência, a experiência, a oração e a amizade. Ouvirá pacientemente e aconselhará com sabedoria. O diretor espiritual se esforçará por conhecer bem a pessoa e acompanhá-la. Desse modo ajudará a discernir e realizar a Vontade de Deus.

É de compreender, mas também de lamentar, que muitos apenas procurem um aconselhamento espiritual como último recurso dos momentos de dificuldade, como se fosse um “pronto-socorro”, ao qual se acode nos casos extremos. Sem dúvida, devem ser acolhidos e ajudados dentro do possível. Contudo, nesses casos, estaremos ainda bem distantes da verdadeira direção espiritual, que deve ser periódica, constante, abarcar toda a vida. A verdadeira direção espiritual poderá ter ocasiões de “pronto-socorro”, mas normalmente está mais para uma academia de aprendizado e fortalecimento. Deveria ser tão comum para um cristão quanto os exercícios para um atleta. Nas horas felizes e nas horas amargas, no grande e no pequeno, no pouco e no muito, no extraordinário e no comum cotidiano, na prosperidade e na adversidade, no temporal e no potencialmente celestial, todas as situações, circunstâncias e nuances têm relação com a direção espiritual, dela devem receber luz e forma.

(Texto retirado do livro “Curso sobre Direção Espiritual – Elementos para aconselhamento pastoral e acompanhamento espiritual“, do autor Manoel Augusto Santos)