criança recebendo o sacramento do batismo

“Os sacramentos me aborrecem,” eu disse a um amigo.

Ele estava lendo um livro sobre a visão do reformador protestante John Calvin a respeito do batismo e da Ceia do Senhor. Eu estava falando honestamente. Na minha mente, os sacramentos representavam um jeito “mecânico” de se aproximar da religião — ritualístico, irrefletido, sem coração, beirando à superstição. Eles eram periféricos à maioria das discussões protestantes sobre salvação e justificação — os temas que realmente me interessavam.

“Os sacramentos me aborrecem”. Mais tarde, minha esposa, Kimberly, disse-me, “Scott, eu não acho seguro falar assim”. Ela lembrou-me de que Jesus Cristo havia instituído o batismo e a Ceia do Senhor.

Dispensar esses dons era flertar com a ingratidão e até com a blasfêmia.

As palavras de Kimberly arrancaram-me da minha complacência. Depois, na medida que lia a Bíblia, fiquei impressionado com certos detalhes que eu havia ignorado. Percebi que Deus tinha um jeito particular e característico de lidar com o Seu povo ao longo dos tempos. Ele fazia alianças, e sempre selava essas alianças, não com uma lição abstrata sobre a natureza da salvação, obrigação, e Lei — mas com um sinal externo, um sinal físico. Quando Deus fez aliança com Noé, Ele pôs um arco-íris no céu como “sinal da aliança” (Gn 9,12). Quando Deus fez aliança com Abraão, Ele instruiu o patriarca para que todos os “vossos machos sejam circuncidados” (Gn 17,10), de novo, um sinal da aliança. Quando Deus fez aliança com Moisés, Moisés estendeu-a a seu povo borrifando-os com o sangue de animais sacrificados: “Este é o sangue da Aliança que Iahweh fez convosco, através de todas essas cláusulas” (Ex 24,8).

Essas palavras e sinais no Antigo Testamento alcançariam sua plenitude no Novo. Jesus falaria de Sua obra de salvação como “a Nova Aliança em meu sangue” (Lc 22,20), e anunciaria, nesse momento, que Ele estabeleceria o Sacramento da Eucaristia, ou a “Ceia do Senhor”, como nós presbiterianos chamávamos.

Ainda mais, Jesus falou dos sacramentos como essenciais à salvação.

Do Batismo, Ele disse: “quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3,5). Da Eucaristia, Ele disse: “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53).

Os sacramentos, então, eram qualquer coisa menos aborrecidos. Eles eram ações com consequências últimas determinantes. Eles eram matéria de vida ou morte, céu ou inferno. Deus pessoalmente falara deles em termos dramáticos. Os apóstolos de Jesus permaneceram fiéis ao Seu exemplo, e eles também colocaram as coisas com firmeza. São Paulo alertou de que os Cristãos que faltassem com a reverência pelos sacramentos atrairiam o julgamento divino e seriam justamente punidos com doenças e até a morte (ver 1Cor 11,29-30). Kimberly tinham razão, então, de questionar sobre a segurança de alguém que fazia pouco dos sacramentos, especialmente quando este alguém era um aspirante de teólogo — e seu marido.

Meu recém descoberto interesse pelos sacramentos exigiu um constante nutrir-me nos livros. Eu estava construindo, com muito trabalho, a doutrina que meus contemporâneos católicos haviam aprendido em fórmulas simples em suas aulas de religião. O Baltimore Catechism1Trata-se do catecismo comumente utilizado, nos Estado Unidos, para preparar para a primeira Eucaristia. — (NT) vide https://www.catholicity.com/ baltimore-catechism/lesson23.html. resumiu isso para as paróquias de uma geração atrás: “Um sacramento é um sinal externo instituído por Cristo para conceder a graça… Os sacramentos derivam de Deus sua força para distribuir a graça, pelos méritos de Jesus Cristo”.

Por que Jesus escolheu comunicar a Sua salvação através de sinais? Porque essa é a forma pela qual os humanos se expressam.

Um sinal é, às vezes, algo usado para representar um outro algo. Todas as palavras são sinais, mas palavras não são os únicos sinais. Uma bandeira, por exemplo, representa um país. Nosso respeito pela bandeira não vem do valor do tecido. A honra que damos à bandeira simboliza nosso respeito pelo país. Quando manifestantes querem mostrar o seu desrespeito por um país, eles geralmente rasgam ou queimam a sua bandeira.

Um sinal é um símbolo visível de algo que é invisível no momento.

Podemos ver uma bandeira, mas não conseguimos ver o país inteiro, muito menos os ideais que o governo da nação personifica. A bandeira é o símbolo do país, de seu povo e de seus valores.

Um sinal revela algo sobre o objeto que representa. Uma bandeira dos Estados Unidos mostra, através de suas cinquenta estrelas, que há cinquenta estados na união; suas listras vermelhas lembram aqueles que morreram servindo ao seu país; as listras brancas representam a pureza, e assim por diante.

No entanto, um símbolo esconde também muito sobre objeto que representa. Sinais e objetos permanecem distintos. Uma bandeira não é um país; e mesmo que possamos passar anos estudando a bandeira, a nação mesma vai escapar de uma definição. A nação, em certo sentido, é uma realidade misteriosa — um mistério.

Um sacramento é como outros símbolos, mas também é diferente deles.

Como outros símbolos, um sacramento significa realidades invisíveis, mas seu valor simbólico é infinitamente mais rico. Considere o Batismo de um bebê. O infante recebe água três vezes enquanto um sacerdote ou diácono pronunciam uma bênção. A água representa o perdão dos pecados. A tripla imersão na água, além disso, simboliza o sepultamento de Cristo por três dias; no Batismo, todos os cristãos participam na morte salvífica de Cristo (cf. Rm 6,3). Contudo, emergir da água também significa a ressurreição do bebê com Cristo — um novo nascimento para a vida divina (ver Tt 3,5).

E há ainda mais. O batismo evoca muitas cenas da Bíblia, a principal sendo o Batismo de Jesus (Mc 1,9-11). A bênção da água significa o Espírito agitando as águas no momento da criação (Gn 1,2). A agua é um sinal das águas purificadoras da grande inundação (Gn 7-9), a passagem de Israel pelo Mar Vermelho (Ex 14,21- 22), o rio correndo pela Jerusalém celeste (Ap 22,1), e muito mais.

Sinais sacramentais representam muitas realidades, todas de uma vez — ou, pelo menos, uma realidade divina multifacetada.

Mas, há um modo mais importante pelo qual os sacramentos diferenciam-se dos demais sinais. Sacramentos são símbolos, mas não são meros símbolos.

Eles são símbolos que transmitem a realidade que significam.

Todos os outros sinais permanecem distintos das coisas que significam. Apenas os sacramentos trazem o que significam. Símbolos ordinários transmitem uma ideia sobre algo. Sinais sacramentais transmitem a realidade sagrada em si.

Não pode haver comunicação mais perfeita do que essa. Apenas Deus poderia expressar-se dessa forma. E Ele está tentando transmitir isso a você e a mim. Nenhum assunto na terra poderia ser menos aborrecido do que os sacramentos!

(Texto escrito por Scott Hann, contido no livro “Que nada se perca – reflexões sobre doutrina e devoção católicas“, do autor Pe. Paul Scalia.)